Texto de Rosemberg Cariry

A região do Cariri cearense é um oásis, o verde coração do semi-árido nordestino. Apesar de ser uma terra de farturas e de portentos, sua história revela a tragédia do processo civilizatório sertanejo no destino de um povo – os Cariri (Kariri ou Quiriri) – que se fundiu na carne e na alma dos seus inimigos: fazendeiros, criadores de gados, agricultores e vaqueiros oriundos de Sergipe, de Pernambuco e da Bahia. Ao Cariri cearense, centro geográfico com eqüidistância para as principais capitais do Nordeste, desde meados do século XVII até os dias de hoje, continuam a chegar multidões sertanejas, em um fluxo constante, atraídas pela fertilidade e pela sagração do território como espaço mítico.

A Chapada do Araripe

A natureza no Cariri cearense é generosa. O santuário ecológico da chapada do Araripe – que em língua indígena significa Lugar das Araras, com uma altitude de 900 metros, detém uma rica biodiversidade, formando o ecossistema peculiar da região, caracterizado pela fertilidade do solo e pelo clima ameno. A chapada do Araripe ocupa uma área de 180 km de extensão na direção leste-oeste e 50 km de largura na direção norte-sul. Composta de várias camadas de arenitos e uma de calcário, teve a sua formação durante o período cretáceo. A formação Santana é hoje um dos sítios paleontológicos mais importantes do mundo, sendo protegido como patrimônio cultural do povo brasileiro. Nas pedras calcárias encontradas quase à superfície da terra pode ser encontrada uma imensa variedade de fósseis de vegetais, peixes, tartarugas, conchas, dinossauros e répteis voadores. Dada a sua importância geográfica e a necessidade da sua preservação para o equilíbrio ecológico do semi-árido nordestino, no ano de 1946, o então presidente Dutra assinou o Decreto-Lei que criando a Floresta Nacional do Araripe-Apodi, com uma área de 34.790 hectares. Já recentemente, um outro Decreto-Lei da presidência da República criou a APA-Araripe e os 2,4 milhões de hectares da chapada passaram a ser área de proteção ambiental.

As 307 fontes naturais de águas doces e cristalinas, que brotam dos sopés da chapada e das serras, abastassem a região e permitem o cultivo agrícola durante quase todo o ano. O historiador Irineu Pinheiro disse que “o Cariri é uma dádiva do Araripe”. Pode-se também dizer, usando a licença poética, que a chapada do Araripe é um mulher, simbologia da Deusa-Mãe, com seus seios grandes e fartos, sempre oferecidos em abundância, alimentando com seu leite os áridos sertões do Ceará.

As Fronteiras do Cariri

Existem várias visões que definem as fronteiras do Cariri. A primeira leva em conta a abundância de águas e a fertilidade do solo e reduz o Cariri ao ubérrimo vale que se estende ao sopé da chapada do Araripe. Lá estão localizadas as cidades de Crato, Juazeiro e Barbalha. O triângulo Crajubar, que abriga a maior população, o maior desenvolvimento e a maior diversidade cultural, é o centro econômico de uma região mais ampla. A Segunda visão, popularmente aceita, leva em conta o clima e define que o Cariri compreende onze Municípios: Abaiara, Barbalha, Brejo Santo, Crato, Jardim, Juazeiro do Norte, Milagres, Missão Velha, Porteiras, Nova Olinda e Santana do Cariri. A terceira visão, mais larga, abrangente e burocrática, define administrativamente o Cariri como todo o extremo meridional do Estado do Ceará, com uma área 15.934Km2 e uma população estimada em 800 mil habitantes, compreendendo 26 municípios, incluindo-se ainda (afora os já citados): Altaneira, Antonina do Norte, Araripe, Assaré, Aurora, Barro, Campos Sales, Caririaçu, Farias Brito, Granjeiro, Jati, Mauriti, Penaforte Potengi e Várzea Alegre. Uma Quarta visão, mais abrangente ainda, compreende o Cariri como o sul do Ceará, os sertões do Pajeú, no Pernambuco e os sertões do Cariri Velho, na Paraíba. Foi pensando nessas fronteiras mais largas, definindo a região mais pela história e pela cultura comum do que pela unidade climática, que o senador José Martiniano Pereira de Alencar, propôs em 1839, a criação da Província do Cariri que incluía, além do Cariri cearense, os Cariris da Paraíba e do Pernambuco.

É muito pobre a definição do Cariri apenas como um espaço geográfico. O Cariri, antes, trata-se de uma nação de mestiços Tapuia que têm em comum a mesma formação histórica e cultural. Mesmo se levarmos em conta apenas o espaço geográfico onde os Cariri habitaram e deixaram a sua marca na cultura popular teremos que considerar ainda os sertões do Piauí, da Bahia, de Alagoas, de Sergipe e do Rio Grande do Norte. Os sertões desses estados formam o território físico e cultural da grande Nação Cariri.

Na maioria das narrativas históricas a palavra Cariri tem a mesma significação que tapuia. Os índios Tupi, conquistadores do litoral, denominavam de tapuia todas as “outras” nações, geralmente inimigas, que não falavam a língua geral. Os colonizadores portugueses tomaram emprestados dos Tupi o termo tapuia para designar todas as nações indígenas que se localizavam nos desertões (sertões) e que resistiam ao processo colonizador. Pode-se então definir que o Cariri compreende todas as áreas dos sertões do Nordeste, ocupadas pela cultura tapuia ou Cariri que será denominada, a partir de agora, de cabocla-cariri. Mais adiante, será objeto de comentários neste texto a cultura que resultou do conflito e da almagação de diversas culturas e etnias nos alicerces da nação sertaneja.

A Terra do Encantado

Sérgio Buarque de Holanda, em A Visão do Paraíso, demonstrou como a terra brasileira, com a sua fertilidade e clima temperado, revelou-se aos europeus como o “Paraíso”, uma terra de prodígios e maravilhas. Os conquistadores projetavam na Nova Terra os delírios hedonistas do “Pays de Cocagne”, narrativa popular medieval que fala de uma espécie de Paraíso (do qual se originou o nosso cordel “País de São Saruê”), onde tudo existia com abundância e todos os desejos do homem podiam se realizar. No Livro Espelho Índio – a formação da alma brasileira, Roberto Gambini diz: “Sendo o Paraíso o lugar das delícias, é onde o homem brinca livremente nos campos do Senhor até desobedecê-Lo e onde tudo é dado de presente. É o lugar da fruição: basta estender a mão e apanhar o fruto, a mulher, o pau-brasil, o braço escravizado… Nessa nova terra ignota e ‘descoberta’, que não era de ninguém e que além do mais recebe a projeção do Paraíso sobre si, constitui-se dessa forma a matriz de uma consciência para qual é possível e desejável apropriar-se da cornucópia e sugar para sempre, como eternos filhos que nunca crescem, o leite de um seio inexaurível”.

Situado em meio à seca e às agruras do semi-árido nordestino, o Cariri cearense, com seu clima temperado, suas fontes de águas cristalinas, suas terras verdes e férteis, também revelar-se-ia ao conquistador como um o lugar da fruição.

Para os índios que habitavam a região, o vale do Cariri cearense já era “território sagrado”, bem antes que os primeiros colonizadores católicos chegassem para a conquista, a posse e o saque. Foi em defesa dessa terra da fertilidade e da fartura, onde se situava também o “espaço mítico”, que os índios Cariri fizeram guerras contra os invasores brancos e mestiços colonizadores e, bem antes, contra as tribos dos sertões que, empurradas pela escassez de víveres e pelas secas periódicas, tentavam se estabelecer na região. Índios, negros e mestiços do Nordeste já conheciam o Cariri cearense como “terra da fertilidade”, como “chão sagrado”, bem antes das pregações do padre Ibiapina e de Antônio Conselheiro, do milagre da beata Maria de Araújo e da fama do padre Cícero. O “caldo mítico” original foi propício à fecundação e eclosão dos futuros movimentos religiosos e crenças messiânicas populares. Os expulsos do “Paraíso” sonhavam com o retorno.

O Mito Fundador

As narrativas míticas indígenas, dispersas em livros, poemas e contos populares, encontram-se fragmentadas e mescladas com narrativas religiosas judaico-cristãs e com as afro-brasileiras. Os mistérios iniciáticos dos mitos originais, como a escultura de um símbolo que tomba, fragmentaram-se em mil pedaços, deixando que se perdessem as chaves dos seus selos. Revisitar essas narrativas e tentar organizá-las em um “corpus” (dar-lhes uma coerência) é tarefa das mais difíceis, só possível através da psicologia profunda e do estudo dos arquétipos.

A narrativa popular, pelo mistério da arte, mergulha nas sombras e revela os arquétipos. Vale a pena enfrentar os perigos de uma jornada através do caleidoscópio de fragmentos míticos e arquetípicos do inconsciente coletivo em busca do mito original. Afirma a tradição que o Cariri era o território mítico de Badzé – o deus do fumo e civilizador do mundo. No princípio era a Trindade: Badzé era o Grande- Pai, Poditã era o filho maior e Warakidzã (senhor do sonho), o filho menor. Os dois irmãos habitavam a constelação de Órion. Badzé enviou Poditã, o seu filho preferido, para a terra Cariri e esse ensinou aos índios a reconhecer os frutos, a caçar animais, a fazer farinha de mandioca, a preparar utensílios de uso cotidiano, a dançar, a cantar e a fazer os rituais de pajelanças. Os índios viviam felizes, mas tinham apenas uma Única-Mulher, a Deusa-Mãe, princípio primevo do cosmo de onde se originaram todas as coisas. Eles desejavam mais… desejavam possuir muitas mulheres que pudessem preparar os alimentos que colhiam e caçavam e que gostassem de se deitar com eles nas redes para afugentar o frio da noite. Para satisfazer os desejos dos Cariri, Poditã orientou-os para que eles, quando fossem catar piolhos na Única-Mulher, ferissem a sua cabeça com um espinho mágico e a matassem. Depois, eles deveriam cortar o corpo da Única-Mulher em tantos pedaços quanto fossem os homens e cada homem deveria envolver o seu pedaço da mulher com capuchos de algodão. Os índios fizeram tudo, conforme as orientações de Poditã, e depois foram para a caça. Quando regressaram, viram admirados que, na aldeia, havia muitas mulheres. Elas alimentavam o fogo e tinham preparado uma grande quantidade de bebidas e comidas. Saciadas a fome e a sede, os índios e as índias sussurucaram em suas redes. Tiveram muitos curumins (crianças) e ficaram felizes, pois a Única-Mulher tinha se transformado na Iara – a Mãe das Águas (o feminino cósmico, inumano), o que assegurava a fertilidade da terra, possibilitando grande abundância de caças e de frutas. Por tudo isso, os índios viviam felizes e agradecidos, dançando e cantando em honra de Poditã. Com ciúmes do irmão, Warakidzã desceu à terra Cariri, transformou as crianças índias em porcos-espinhos (o embrutecimento do espírito, o futuro negado), fazendo com que elas subissem num gigantesco pé de árvore (a árvore do bem e do mal?). Não satisfeito, pediu às formigas azuis para que roessem o tronco da árvore, derrubando-a por terra e deixando as crianças-porco-espinho para sempre encantadas no céu. A terra Cariri ficou um eterno “hoje”, sem amanhã. Depois de muitas tentativas inúteis de por a enorme árvore em pé, impossibilitados de subirem até os céus, os índios disseram a Poditã que estavam muito tristes e que queriam de volta a alegria das suas crianças (o seu futuro). Poditã ensinou então aos pajés que, invocando a proteção de Badzé, fumassem seus cachimbos com ervas mágicas e tomassem o vinho da jurema preta para ter visões proféticas, entrando, assim, em contato com o mundo dos encantados. Contente com a visita dos espíritos dos pajés e com as ofertas de fumo, Badzé castigou Warakidzã, desencantou as crianças-porco-espinho em curumins e as devolveu ao Paraíso da terra Cariri que voltou também a ter um amanhã.

O lago encantado

Os índios Cariri diziam provir de um “lago encantado”, provavelmente do Tocantins ou do Amazonas (ref. Capistrano de Abreu). O factual é que, habitantes do litoral nordestino, os Cariri foram sendo, pouco a pouco, empurrados para os sertões pelos Tupi, seus inimigos, e, posteriormente, pelos invasores europeus. Reza a tradição que eram de uma bravura e ferocidade estupendas, e como símbolo e troféu dos seus feitos épicos se ornamentavam com dentes de tubarão. O mito das águas tinha uma importância fundamental no sistema de crenças dos Cariri. A Deusa-Mãe, o espírito cósmico fecundante (a Única-Mulher), adquiriu, na cosmogonia Cariri, a simbologia da água representada pela Mãe d’Água – serpente sagrada que dorme nas profundezas da terra e guarda os segredos da vida e da morte.

Notícias da Mãe d’Água

Até algumas décadas atrás, a Mãe d’Água ainda habitava as fontes do sopé da Chapada do Araripe. Dona Amélia da Luanda, uma cabocla de 92 anos de idade, que mora próximo à “Nascente Batateiras”, no Crato, conta que na década de 20, seus irmãos chegaram a ver a Mãe d’Água (a Única-Mulher – o feminino inumano) e, por pouco, não morreram. Eles foram hipnotizados e atraídos pela insuportável beleza da Mulher-Serpente que flutuava na superfície das águas. Sua cabeleira de milhões de fios luminosos e verdes se ramificavam pela terra, como raízes. Os gritos da mãe verdadeira (o feminino humano) que, pressentindo o perigo, buscava os filhos na floresta, salvou-os de última hora. Não há quem possa ver, face a face, a Deusa-Mãe sem se dissolver nas suas profundezas. Dona Amélia da Luanda não informa se, depois de tão extraordinária “visão”, seus irmãos ainda ficaram “normais”. Com certeza não, possivelmente ou enlouqueceram ou viraram “iluminados” e saíram, pelos sertões afora, a profetizar os segredos do fim do mundo. A construção da usina hidroelétrica na “Nascente da Batateiras”, em 1939, terminou afastando a Mãe d’Água para as profundezas da terra. Como resquício dessa presença mágica da Mãe d’Água na “Nascente da Batateiras”, Dona Amélia da Luanda ainda aponta outros acontecimentos prodigiosos: em algumas noites, quando a lua está cheia (força feminina da fertilidade), ouvem-se as flautas e os zabumbas dos “caboclinhos” tocando dentro da floresta do Araripe. Esses “caboclinhos” são os curumins desencantados, festejando o regresso ao Paraíso Cariri.

A resistência

Os colonizadores, na sua gana predatória de domínio dos campos agrícolas e de criação de gado, tentaram eliminar as nações tapuia, em todos os sertões do Nordeste, através da catequização e das chamadas “guerras justas”, justificativas cínicas para a rapina, a escravidão e o massacre. A resistência indígena à avassaladora penetração do conquistador branco nos sertões deu-se através do que ficou historicamente conhecido como a Guerra dos Bárbaros ou Confederação dos Cariri que durante 30 anos, de 1683 a 1713, reuniu e deu unidade de ação às investidas guerreiras das nações Tapuia contra o estabelecimento colonial. O historiador e escritor Gustavo Barroso reconhece que: “No Nordeste, especialmente no Rio Grande do Norte e no Ceará, a Confederação dos Cariris (Cariri, no caso, significa tapuio em geral), embora muito menos falada, quase destruiu em seus fundamentos a colonização lusa”. Os índios rebelados seriam duramente combatidos em uma guerra de extermínio que contou com o auxílio de forças armadas vindas de todo o país, sobretudo de bandeirantes paulistas. Depois das batalhas, os prisioneiros mais fortes eram exterminados a ferro frio, as mulheres e as crianças eram escravizadas e enviadas para as fazendas para indenizar os proprietários de terra dos custos da “guerra justa”. Dessas mulheres escravizadas e violadas descendemos nós – o povo caboclo. Darcy Ribeiro fala que esses primeiros “mestiços” eram “ninguém” e que, para existir, precisavam reinventar-se a si mesmos. Assim reinventamos uma nova cultura, uma nova civilização do semi-árido.

O Cariri vai virar mar

Os remanescentes das tribos Cariri, alocados na Missão do Miranda, guardaram codificados, na sua sensibilidade, intuição e memória, a evocação da “lagoa encantada” – lugar mítico das suas origens. Para eles todo o vale do Cariri era um mar subterrâneo. Debaixo da terra dormia a Serpente d’Água, cujo imenso caudal era represado pela “Pedra da Batateiras”, ao sopé da chapada do Araripe. Precisamente, onde hoje está situada a Matriz do Crato, erigida sob a invocação de N.S. do Belo Amor, era a cama da baleia ( na simbologia cristã : o peixe que guia a arca nas águas do dilúvio) Os pajés Cariri profetizavam que a “Pedra da Batateiras” iria rolar, todo o vale do Cariri seria inundado e as águas, em fúria, devorariam os homens maus que tinham roubado a terra e escravizado os índios. Quando as águas baixassem, a terra voltaria a ser fértil e livre e os Cariri voltariam para repovoar o “Paraíso”.

Não se sabe em que momento surgiu a lenda da “Pedra da Batateiras”, mas é possível que tenha surgido com o aldeamento dos índios Cariri na Missão do Miranda (1740 – 1750). É certo que, por volta de 1779, na mesma época em que eram despojados mais uma vez das suas terras, por decisão de José César de Meneses, governador de Pernambuco, os caboclos-cariri atribuíam a profecia de que “o Cariri iria virar mar” ao frei Vital Frescarolo, missionário apostólico capuchinho. Em um momento de crise, de dissolução da cultura e do sentido de “comunidade”, os caboclos-cariri buscavam, assim, uma “autoridade” exterior para dar à lenda foros de verdade sagrada e manter a coesão do grupo. Irineu Pinheiro registra que, em 1803, o frei Vital aldeou, nos sertões de Pernambuco, tribos remanescentes da grande Nação Cariri.

O padre Cícero e Antônio Conselheiro bebem no mito

A lenda com o tempo passa por modificações ao sabor das necessidades históricas. Para os romeiros que chegavam a Juazeiro, cidade vizinha ao Crato, a profecia da grande enchente era inquietante, pois, mesmo para a lógica mais elementar, significava que se o Crato fosse inundado, o Juazeiro também o seria. Surgiu, então, a “boa nova” de que o Padre Cícero amarrara a “Pedra da Batateiras” com grossas correntes de ferro e teria pedido a proteção da Mãe do Belo Amor (a primeira imagem adorada pelos índios Cariri na Missão do Miranda). A pedra só iria rolar no final dos tempos e Juazeiro seria suspenso no céu para que as águas passassem devorando as iniqüidades do mundo. Baixas as águas, teria início a era do “Espírito Santo” e os pobres e deserdados da terra herdariam o “Paraíso”. Nas suas andanças pelo Cariri, na época em que negociava com cachaça, Antônio Conselheiro escutou de caboclos da região o lenda da “Pedra da Batateiras”, a partir da qual fundamentaria a profecia que pregava nos sertões da Bahia: “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Esse discurso “messiânico” encontrou eco nos caboclos dos sertões baianos, fazendo com que os índios Cariri de Mirandela e Saco do Morcego, catequizados pelos frades capuchinhos, contribuíssem com a força de 300 caboclos flecheiros na defesa do Império Sagrado de Canudos, contra a fúria insana dos exércitos enviados pela jovem República brasileira. A narrativa desse apoio histórico dos Cariri a Antonio Conselheiro foi documentada pelo escritor e cineasta Hermano Penna, depois de pesquisas por ele realizadas, nos sertões da Bahia, para o filme “O Raso da Catarina”.

A história e o negro Cariri

O destino do coração-Cariri está ligado ao destino do corpo-sertões-do-Nordeste, com seus mitos e suas histórias. Para o jornalista e historiador João Brígido, o Cariri cearense foi ocupado por aventureiros baianos, partidos do Rio São Francisco, entre l660 a 1680. O mesmo historiador refere-se a uma narrativa, com sabor de lenda, sobre um negro escravo da Casa da Torre de Garcia D’Ávila que, em idade tenra, caiu em poder dos índios Cariri. Em guerra contra outras nações indígenas, em defesa do seu território, os Cariri teriam acolhido a sugestão do negro escravo de buscar ajuda dos homens brancos. Teria sido, então, esse negro-cariri o guia dos portugueses e mestiços do Pernambuco e da Bahia para a região. Tal acontecimento determinaria a ocupação da “casa” pelos “convidados” e a posterior destruição das nações indígenas em conflito. Fato histórico ou lenda, os documentos apontam que o estabelecimento dos colonizadores na região não foi tarefa das mais fáceis. Os índios impuseram forte resistência aos fazendeiros, criadores de gado e agricultores, mas terminaram sendo vencidos pelas armas e pelas armadilhas das palavras empenhadas. Depois de dobrada a resistência indígena, teve início o assentamento do homem branco à terra, com as atividades econômicas da pecuária e, posteriormente, com a agricultura, destacando-se o cultivo da cana-de-açúcar, o que possibilitou o estabelecimento na região dos primeiros engenhos de rapadura, entre os anos de 1710 e 1725. Enfraquecidos pela submissão à paz forçada, os índios seriam definitivamente vencidos pelo trabalho dos padres capuchinhos italianos, notadamente pelo Frei Carlos Maria de Ferrara, que consolidou o aldeamento dos índios na chamada Missão do Miranda, no local onde hoje está situada a igreja matriz da cidade do Crato. A derrocada final da Missão do Miranda ocorreria no ano de 1780, quando, por ordem do ouvidor José da Costa Dias Barros, os últimos índios Cariri, já antes despojados da terra, foram obrigados a deixar a região e dispersados por diversos aldeamentos do litoral, misturando-se com outras nações indígenas, com brancos pobres, com negros, ciganos e judeus (cristãos-novos), dando origem ao povo mestiço: caboclo-cariri.

A mais linda e inesquecível…

Quando Fortaleza era ainda um denso areal, sem ruas definidas, com a maioria das casas de palha e de taipa, a cidade do Crato já se erguia como importante centro econômico e cultural, irradiando o “processo civilizatório” por todos os sertões do Ceará e pelos os circunvizinhos: os Estados da Paraíba, de Pernambuco e do Piauí. Os índios, os mestiços e os negros, marginalizados e espoliados de todos os direitos e de todos os bens, reinventavam a si mesmos a partir das muitas heranças culturais e faziam trabalho servil no pastoreio, nos roçados e nos engenhos. Os brancos senhores, donos das leis e das terras, viam crescer, mais e mais, o seu poderio econômico e político, estabelecendo vínculos com os centros urbanos mais adiantados do país e da Europa. Essa pujância econômica e cultural levaria poderosas famílias da região a participar de acontecimentos históricos importantes e transformadores da sociedade sertaneja. Os fortes laços comerciais e culturais que ligavam a região do Cariri cearense a Pernambuco, determinaram a significativa participação da região na Revolução de 1817. O seminarista José Martiniano de Alencar foi enviado de Recife para o Crato, onde residia a sua mãe Dona Bárbara de Alencar e o seu irmão Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, para desencadear a revolução no Ceará. No patamar da igreja matriz do Crato, o jovem seminarista, com apoio da mãe, do irmão e de outras importantes pessoas da região, asteou a bandeira revolucionária, proclamou a República e decretou o fim do domínio português no Brasil. Isso aconteceu no dia 3 de maio de 1817. Ainda no mesmo mês, as forças conservadoras e legalistas sufocaram a jovem República que se inspirara nos ideais dos iluministas franceses. Os gritos de igualdade, fraternidade e liberdade seriam sufocados pelo sangue e pelo terror. José Martiniano, Tristão Gonçalves, Dona Bárbara de Alencar e outros republicanos foram presos e conduzidos às masmorras. O mesmo destino tiveram os republicanos de Pernambuco, da Paraíba e do Rio Grande do Norte, sendo que muitos deles foram condenados à morte. Para Luís da Câmara Cascudo, “a Revolução de 1817 foi a mais linda, inesquecível, arrebatadora e inútil das revoluções brasileiras”. Ainda para Cascudo, “Nações e frutas têm sua hora natural de maturação. O encanto das revoluções é a tentativa de apressá-las e promover a velocidade do quadrante do tempo imperturbável. Todas as nossas revoluções têm um apaixonante ângulo para nosso instintivo solidarismo democrático. Mas não coincidiram com o tempo e foram marcando apenas, com sangue, o caminho para a hora transfiguradora”.

A alma afoita da revolução

Em 1822, quando o Imperador Pedro I proclamou a Independência do Brasil, o Cariri abraçou a causa libertária e ajudou, com seus exércitos improvisados de cabras, negros e caboclos (6.000 homens em armas), sob o comando do Capitão-mor Pereira Filgueiras e de Tristão Gonçalves de Araripe, na libertação do Maranhão e do Piauí do jugo português. Após consolidada a independência, o Imperador Dom Pedro I mostrou-se despótico e arbitrário e, com um golpe de estado, dissolveu a Assembléia Constituinte, frustando os ideais de patriotas das várias províncias brasileiras. No Nordeste, região de tradição nacionalista e insubmissa, a resposta não tardaria. O sonho de liberdade e os ideais igualitários eram mais fortes do que a repressão do Império. A chama revolucionária de 1817 voltaria a se inflamar em generosidade de idéias e de heroísmo. Em 1824, em Pernambuco, eclodiu a Confederação do Equador que terminou por se propagar por várias províncias. No Ceará, Tristão Gonçalves de Alencar Araripe – cognominado como “a alma afoita da revolução”, partindo do Crato à frente de um exército rebelde formado por cabras, negros e caboclos, venceu as forças fiéis ao Imperador Pedro I e instalou, em Fortaleza, no dia 28 de abril de 1824, um Governo Revolucionário, inspirado no ideário da revolução francesa. Sonhava-se na época com um país democrático e sem escravidão. Enquanto o presidente Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e o Capitão-mor José Pereira Filgueiras, chefe em armas da revolução, combatiam focos contra-revolucionários no interior do Estado, uma divisão naval comandada pelo mercenário Lord Cochane, desembarcando em Fortaleza, tomou o palácio do Governo e fez hastear novamente a bandeira imperial. A capital não opôs resistência e as tropas revolucionárias, perseguidas e combatidas por mercenários e bandidos contratados a peso de ouro pelo Império, não receberam os esperados reforços que viriam de outras províncias. Os emissários que foram enviados aos Estados Unidos e à Europa para comprar armas não tinham respostas positivas. Diante de tudo isso, tornou-se impossível a continuidade do governo republicano das províncias livres do Equador. Traído por antigos aliados, lutando sozinhocontra os bandidos que caçavam a sua cabeça posta a prêmio, o presidente Tristão Gonçalves de Alencar Araripe seria morto (31 de outubro de 1824), em emboscada armada, pelo facínora José Leão, no povoado de Santa Rosa (Jaguaribara), às margens do rio Jaguaribe. O seu cadáver foi brutalmente mutilado e ficou exposto ao sol, secando como uma múmia. Uma noite, as escondidas, o povo recolheu o cadáver do presidente Tristão Gonçalves e o deu sepultura sob o piso da igreja de Santa Rosa de Lima. Sufocada a revolução, o Imperador Pedro I instalou tribunais militares nas províncias de Pernambuco, do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte para julgar e condenar à prisão perpétua e à morte os patriotas confederados, mas tudo isso não conseguiu apagar a memória desses homens generosos e extraordinários.

A “alma santa” do sertão

Em Jaguaribara, a terra bárbara, fecundada pelo mito do herói, virou “chão sagrado”, onde o povo, ainda hoje, paga promessas e reza para “São Tristão”. Tristão Gonçalves de Alencar Araripe – “a alma afoita da revolução”, virou “alma santa” e, compadecida da miséria do povo, faz milagres, curando pequenas mazelas: de engasgo de menino buchudo à espinhela caída de mulher que sofre de mal de amor.

A serpente mordendo a própria cauda

Tão importante quanto esses acontecimentos históricos revolucionários, postos em marcha por setores influentes da sociedade sertaneja, foram os movimentos religiosos populares, surgidos na região do Cariri, na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. O povo a seu modo também faz as suas “revoluções” e chega ao futuro pelo retorno à fonte primordial – é a circulatio, “o circuito repetido de todos os aspectos do ser, que aos poucos gera a consciência de um centro transpessoal que unifica os fatos em conflito”(Edward F. Edinger – A Anatomia da Psique). Se foi Badzé que desencantou os “porcos-espinhos” novamente em curumins e deu um futuro aos Cariri, a volta ao passado (o reencontro com Badzé ou com o Grande-Pai) só pode representar a chegada ao futuro. Esses movimentos místicos e messiânicos dos “excluídos do Paraíso” sempre são duplamente sufocados e punidos, quando não passíveis de domesticação pelas classes política e economicamente dominantes. Profundos e contraditórios, esses movimentos ourobóricos (ref. a serpente que morde o próprio rabo – simbologia cósmica) determinaram algumas mudanças na sociedade sertaneja que parecem ser, sob a ótica popular, mais significativas que as “revoluções” burguesas dos iluministas e dos românticos regionais. Desses movimentos religiosos populares, acontecidos na região do Cariri cearense, destacam-se os do padre Cícero, em Juazeiro do Norte e o do beato José Lourenço, no sítio Caldeirão, em Crato.

O sinal de Warakidzã – o senhor dos sonhos

Em 11 de abril de 1872, aos 28 anos de idade, recém ordenado, chegou ao pequeno povoado de Juazeiro do Norte, para rezar missa na capelinha de Nossa Senhora das Dores (a Mãe de Deus), o padre Cícero Romão Batista. Acontecimento providencial, pois pode-se dizer que a cidade de Juazeiro do Norte deve a sua existência a essa visita. A severa moral do sacerdote livrou do crime e da vida desregrada os habitantes do lugarejo, que, em 1875, já tinha 32 casas de taipa, uma escolinha de palha e 2 mil habitantes. Em 1888, ano em que uma terrível seca flagelou os sertões, o padre Cícero teve um sonho que o marcou profundamente e transformaria para sempre a história do povo nordestino. Depois de passar um dia inteiro confessando e consolando camponeses miseráveis, o padre Cícero recolheu-se à pequena escola, onde estava alojado, adormeceu e sonhou que na mesa do professor, disposto como no quadro a “Última Ceia” de Leonardo da Vinci, estavam o Cristo e os doze apóstolos. No sonho, o padre acordava-se, levantava-se e ficava em um canto da sala olhando maravilhado aquela cena. Jesus Se preparava para falar aos apóstolos quando, na sala, irrompeu um bando de camponeses miseráveis e famintos, vindos dos confins dos sertões. Cristo, então, voltou-se para esses pobres homens e falou sobre a ruindade do mundo, prometendo que se os homens se arrependessem dos seus pecados faria uma nova Redenção da humanidade. Percebendo, Cícero em um canto da sala, Cristo voltou-se para ele e, apontando os camponeses flagelados, disse: “E você, Cícero, tome conta deles”. O padre, então: Se acordou na certeza de que o Senhor,/ Lhe botava para ser nesse caminho,/ o padrinho do povo sem padrinho/ e o pastor das ovelhas sem pastor” (fragmento de um poema de Geraldo Amâncio).

A Nova Jerusalém

Cumprindo a profecia anunciada no sonho, o Padre Cícero terminou por fixar residência em Juazeiro onde viveria, em l889, um fato extraordinário que mudaria por completo a história do pequeno povoado. A partir do dia 1°. de março, durante 47 dias, um acontecimento tido como milagroso iria repetir-se e acender uma nova chama messiânica no coração do povo. O Padre Cícero ao dar a comunhão na boca da Beata Maria de Araújo, uma humilde cabocla, descendente de índios e de negros da região, viu a hóstia consagrada transformar-se em sangue. Para o povo dos sertões, da terra marcada por tantas misérias e dores, o filho de Deus se lembrara dos miseráveis e dera um sinal de um novo tempo. A partir desses acontecimentos tidos como extraordinários, o padre Cícero transformou-se em um verdadeiro mensageiro de Deus na terra, a beata Maria de Araújo em uma santa e os deserdados filhos da terra em povo escolhido para a nossa promissão. O chamado “milagre de Juazeiro” nasceu da necessidade coletiva (um ano após a grande seca de 1888 que matou grande parte da população, dizimou os rebanhos de gado e arruinou a economia sertaneja) e tal foi a sua repercussão e a sua força simbólica que chegou a subverter dogmas religiosos, conceitos políticos e estruturas sociais, ocasionando profundas mudanças no destino de milhares de camponeses pobres e sem-terra de todo o Nordeste. Homens e mulheres, miseráveis e sem palavras, fizeram-se profetas e correram mundo anunciando que Deus novamente esteve presente entre os deserdados e, através da hóstia que se transformara em sangue na boca da beata Maria de Araújo, sinalizava a chegada de um novo tempo de fartura e de bem aventuranças. As ovelhas famintas tinham agora o seu pastor, um homem pobre e cheio de compaixão, de nome Cícero, como tantos outros Josés e Severinos.

Começaram assim as romarias para Juazeiro, transformada pela fé em cidadela sagrada: a Nova Jerusalém bíblica, a “Meca” do Nordeste dos peregrinos, a “Terra Sem Mal” de Badzé, o “País de São Saruê” dos trovadores, o lugar de todas as utopias já profetizadas. Não apenas o povo pobre, mas também muitos padres da região chegaram a Juazeiro para render culto às hóstias que se transformavam em sangue na boca da beata. Os dirigentes da Igreja condenavam o movimento religioso popular como subversivo e herético. O padre francês Chevallier, reitor do Seminário da Prainha, em Fortaleza, condenou publicamente o que chamou de embuste e declarou: “Jesus Cristo não vai deixar a França para obrar milagres no Brasil”. Houve forte reação do clero nacionalista que, ao contrário do que dizia o padre Chevallier, afirmava que: “Cristo escolhera o Brasil, a Terra da Santa Cruz, como local onde novamente derramaria o seu sangue e redimiria, pela segunda vez, a humanidade sofredora e pecadora”. Já outros teólogos, mais bem posicionados na hierarquia da Igreja, como negação do milagre, lembravam a condição de Maria de Araújo: cabocla, pobre e analfabeta. Eles perguntavam: como pode Jesus derramar o seu precioso sangue na boca de alguém tão miserável? A subversão estava no óbvio, na previsível opção de Jesus em novamente sacrificar-se pela humanidade derramando o Seu Precioso Sangue na boca de uma pobre camponesa. Essa era a subversão, Jesus não derramara o Seu Preciso Sangue na boca do papa, do bispo, dos padres franceses do Seminário da Prainha, em Fortaleza, ou de algum rico coronel latifundiário da região. Ao contrário, segundo a crença popular, Jesus escolhera a mais pobre entre as pobres mulheres do Cariri para manifestar o seu amor pela humanidade.

O templo-oficina dos filhos da Mãe de Deus

Independentemente das questões teológicas e das querelas políticas, as multidões famintas continuavam a chegar a Juazeiro em busca da redenção e da Terra Prometida. O padre Cícero orientava os milhares de romeiros que chegavam para que as suas casas fossem uma igreja e um oficina. A cidade se transformou, em pouco tempo, no templo-oficina dos filhos da Mãe de Deus. Aconteceu um verdadeiro renascimento das culturas e das artes populares sertanejas, com conseqüências positivas na economia e na vida social da região. Afloraram, na alma coletiva, os arquétipos de todas as heranças espirituais e culturais formadoras do povo caboclo-cariri que, antes disperso, reencontrava agora o seu guia, o seu Pai-Badzé. No caldeirão mágico de Juazeiro, todas as heranças ibéricas, afro-brasileiras, ameríndias e dos povos mestiços do Nordeste entraram em ebulição e geraram uma nova cultura. Em torno do padre Cícero, explodiu um novo mundo de misérias e de maravilhas. A igreja, pressentindo, mais do que uma heresia, a subversão social e o cisma que se processavam, acusou o padre Cícero de querer fundar “uma igreja dentro da igreja”. O bispo Dom Joaquim condenou o que chamava de “pretensos milagres” e ordenou aos padres que acreditavam no “milagre” que rejeitassem as suas crenças e fizessem retratações públicas. O padre Cícero acreditava na origem divina do fenômeno das hóstias que sangravam na boca da beata Maria de Araújo e confessou a sua fé em carta enviada ao bispo. Como conseqüência, no ano de 1892, o padre Cícero teve as suas ordens eclesiásticas suspensas e foi proibido de rezar missas, confessar ou fazer pregações em Juazeiro. Uma onda de revolta e indignação agitou o povo caboclo-cariri.

A sagração universal

Em 1898, o padre Cícero viajou a Roma, por ordem das autoridades eclesiásticas cearenses, para submeter-se e ser julgado pelo Santo Ofício. A viagem do padre Cícero por mundos tão distantes criou asas no imaginário popular. Ao retornar a Juazeiro, padre Cícero foi recebido como um santo que, injustiçado pelo bispo do Ceará, fora redimido pelo Papa e abençoado por Deus. Para o povo, a santidade do padre Cícero deixava de ser regional para transformar-se em um fenômeno universal. A partir de então, o Padre Cícero, eleito no coração do povo como o Santo Patriarca dos Sertões, passaria a exercer uma forte influência política na região, chegando a ser eleito deputado federal e nomeado vice-presidente da Província do Ceará. Com os anos, o seu prestígio popular foi aumentando de forma contínua, até a sua morte, aos 90 anos de idade, no alvorecer do dia 20 de julho do ano de 1934.

Renascendo na morte

Para os que diziam que com sua a morte a fé do povo iria se arrefecer e o Juazeiro entraria em decadência, a realidade mostrou exatamente o contrário. A fama de santidade de padre Cícero cresceu ainda mais com a sua morte e Juazeiro se transformou em uma das mais importantes cidades do Nordeste brasileiro. Para os romeiros da Mãe de Deus”, o “Padim Ciço” nunca morreu, apenas fez uma viagem para o céu, onde foi interceder pelo seu povo, pelos deserdados filhos da terra, foi pedir a Deus para que o “Paraíso-terreal” se desencante. Mas isso só será possível depois das três noites de escuridão e dos três estrondos que vão abalar a “Pedra da Batateiras”, fazendo despertar a serpente das águas no interior da chapada do Araripe. Todo o Cariri será um imenso mar. A baleia, que dorme sob o altar da matriz do Crato, flutuará com a imagem de Nossa Senhora – a Mãe do Belo Amor, no dorso. O padre Cícero resgatará a Mãe do Belo Amor da fúria das águas e a levará para a matriz de Juazeiro, onde Ela reinará ao lado da Mãe de Deus. Em frente à matriz, ficará o porto para entrada e partida de navios de todos os recantos do mundo. Primeiro é o reino da Mãe, depois vem o reino do Pai que, seguido do reino do Filho, preparará o mundo para o reino do Espírito Santo (ref. as heresias de Joaquim de Fiore – século XIII – Calábria).

 Enquanto alguns romeiros apontam o “Padim Ciço” como o Filho, outros, como os beatos da Irmandade Aves de Jesus, o tem como o “Espírito Santo”. O certo é que, com a bênção da Deusa-Mãe, o novo mundo, justo e igualitário, será dirigido pelo “Padim Ciço”. Juazeiro será a Nova Jerusalém com suas torres de ouro, suas muralhas de prata e suas pontes de cristal. Todo o pobre será rico, todo o doente será são, todos os humilhados serão exaltados. Quem já leu os evangelhos populares de João de Cristo Rei sabe que:

“Quem dos três estrondos com vida escapar,

Irá se apossar da melhor morada;

As coisas que os ricos deixam em abandono

Ele é quem é dono, não lhe falta nada.

O sítio encantado que o horto tem

Se verá também com frutas maduras,

Nesse tempo as pedras se transformam em pão

Para a remissão das gentes futuras”.

Juazeiro é o espaço onde o tempo perdeu as paredes das ilusões que separam passado-presente-futuro. Os profetas populares compreenderam que o universo é um cobra mordendo o próprio rabo. Pelas ruas, os beatos Aves de Jesus semeiam a roça da Mãe de Deus com as mesmas orações e palavras que Antônio Conselheiro reinventou a tragédia nos sertões. Na casa de mãe Dodô, os índios Pankararu de Pernambuco agitam os seus maracás mágicos pedindo pela fertilidade da terra. Os peregrinos de Pedro Velho, vindos de Santa Brígida, como sufis, dançam a leveza de São Gonçalo, o santo que nas ruas de Lisboa salvava as prostitutas tocando viola e cantando canções de amor. Antônio Gomes – o profeta cuja missão foi anunciada em sonhos, vestido de São João Batista, puxa pelas ruas uma pequena réplica da barca de Noé e anuncia o próximo dilúvio. Na sua tapera, o cego e rabequeiro Zé Oliveira invoca os “caboclo de flecha” para curar as mazelas e as misérias do mundo. Na Santa Missa, na igreja matriz do Juazeiro, os romeiros comungam o corpo transubstanciado de Cristo (o Deus sacrificado) com a mesma sacralidade e devoção com que os índios Cariri devoravam os seus mortos mágicos, para não mais sentirem “nem saudades e nem tristezas”. Juazeiro é um rio que flui das profundidades da alma coletiva, um mundo que se inventa a si mesmo. Não importa que novas lendas surjam a cada dia e que antigos mitos, indígenas, afro-brasileiros e bíblicos sejam sempre recriados – tudo gira em torno do padre Cícero. Se, em vida, ele já era o “Padim”, ao morrer, livrou-se das suas contradições históricas e das limitações humanas e passou a habitar o território do mítico e do sagrado no coração do povo. É inútil buscar, nas ações históricas e contraditórias do padre Cícero homem, todas as motivações para a fé do povo. O mito do “Padim Ciço” tomou o lugar do homem concreto e histórico. O “Padim Ciço”, chame-se Javé, Badzé ou Oxalá, é sempre o mito, o herói civilizador. É padre Ibiapina, é Conselheiro, é Frei Damião, é caboclo “baixado” em ritual de pajelança, é preto velho em terreiro de macumba. O “Padim Ciço” é o Santo do mundo inteiro e, além de Santo, é o Espírito. O “Padim Ciço” é água caririzeira que brota do mar do inconsciente coletivo e universal para desaguar e fertilizar as securas dos sertões. A alma do povo é o leito onde essa água ancestral adquire a sua forma de rio que une as margens dos contrários e integra as forças fecundantes do masculino (o Pai) com as forças criadoras do feminino (a Deusa-Mãe).

Uma história sem ter fim

O túmulo do Padre Cícero, na igreja de Nossa Senhora do Socorro, é “chão sagrado” – inesgotável fonte de energia mágica. Ainda hoje, embora um pouco decepcionado com o ano 2.000, o povo da Mãe de Deus espera pelo final dos tempos, pelo grande dilúvio da “Pedra da Batateiras” que irá desencantar a Nova Jerusalém. Em Juazeiro, as pedras se transformarão em pão e, nos rios, correrão o leite e o mel. Enquanto o “Paraíso” não se desencanta e o sonho da Nova Jerusalém não se realiza, o povo resiste e encontra, na sua própria história e cultura (em construção), as formas de luta e da necessária resistência. A cultura cabocla-cariri não é a cultura da miséria, é antes a cultura que à miséria resiste e que afirma a vida no ritual da beleza possível. Em Juazeiro, o sonho (império de Warakidzã) não acabou e a história não tem fim. Em Juazeiro, a utopia ainda é uma força que transforma corações e mentes. É o reinventar, a partir das religiões caboclas, afro-brasileiras e do catolicismo popular ibérico, uma nova religião. O vulcão parece extinto, mas não está. A “heresia” real é apenas uma ilusão, pois a “subversão” da religião oficial se dá em silêncio e se processa nas profundezas da alma. O povo, reprimido e massacrado em Monte Rodeador, Canudos, Juazeiro, Caldeirão, Pau de Colher… já sabe o quanto dói a repressão e sempre encontra as formas mais eficazes de proteger os seus segredos e cultuar seus deuses.

O boi Ápis mora em Baixa Dantas

Filho espiritual do padre Ibiapina, de Antônio Conselheiro e do padre Cícero, José Lourenço, um negro natural da Paraíba, ainda muito jovem, chegou ao povoado de Juazeiro do Norte (1890), atraído pelas notícias maravilhosas do “Sangue Aprecioso” da beata Maria de Araújo e pela fama milagreira do padre Cícero. O clima místico da cidade despertou a sua vocação religiosa e ele decidiu ser um beato. Ele poderia ter sido apenas mais um, entre as dezenas de beatos e beatas que perambulavam e esmolavam pelas ruas da cidade, vigiados de perto pelo olhar tolerante do padre Cícero. Mas a sua vivacidade, inteligência privilegiada e grande capacidade de liderança logo o fariam célebre na região. Seguindo os conselhos do padre Cícero, no início deste século, o beato José Lourenço arrendou o sítio Baixa Dantas, nas proximidades do Crato e para lá seguiu com diversas famílias, escolhidas entre as muitas que chegavam a Juazeiro nas grandes romarias. Organizando a comunidade com o rigor do trabalho e da oração, o beato José Lourenço conseguiu, em pouco tempo, resultados surpreendentes na agricultura, na criação de gado e na produção artesanal. A terra, até então tido como árida e encapoeirada, foi transformada, pelo esforço coletivo, em um verdadeiro pomar, produzindo frutas e hortaliças, além de algodão, café, arroz, feijão e mandioca. O produto da terra era repartido de forma igualitária entre os membros da comunidade que trabalhavam o dia inteiro e, à noite, se reuniam para as rezas, as novenas e as ladainhas.

A sorte da comunidade começou a mudar quando o beato recebeu do padre Cícero um boi zebu, de grande porte e beleza, que recebeu o nome de Mansinho e foi usado como reprodutor para melhorar os rebanhos da região. Por ser propriedade do padre Cícero e símbolo da bondade, da calma, da força pacífica e da fecundidade (rf. visão de Ezequiel), o boi Mansinho passou a ser tratado com muitos cuidados: banhos todos os dias, guirlandas de flores silvestres nos seus chifres e repasto do melhor capim. Como o “milagre da produção” realizado pelos “fanáticos e analfabetos” de Baixa Dantas já era visto como um perigo pela alta sociedade do Crato e de Juazeiro, o zelo com o boi terminou servindo para alimentar muitas fantasias maldosas. Ditos em palavras e firmados em letra de forma , os boatos davam conta de que a urina e as fezes do boi serviam de remédio (costume tradicional da medicina popular) e que era conduzido em procissão pelos seguidores do beato que o adoravam como Ápis – o boi sagrado do Egito. Floro Bartolomeu, influente político local e braço direito do padre Cícero, sentindo-se ameaçado pela crescente liderança do beato José Lourenço, acusa-o de “negro fanático”, manda prendê-lo e faz o boi Mansinho ser executado em praça pública do Juazeiro, para servir de exemplo contra os excessos da religiosidade popular. Que ficasse claro para o povo quem eram os verdadeiros líderes, representantes da “ordem e do progresso”, na região. Pouco tempo depois, liberto por influência de alguns pequenos proprietários de terra do Crato que também se beneficiavam com a mão-de-obra disponível no sítio Baixa Dantas, o beato retornou à comunidade, mas a desgraça viria novamente bater à sua porta. Com interesse nos muitos benefícios que foram realizados em suas terras, o Sr. João Brito, proprietário do sítio Baixa Dantas, despejou o beato José Lourenço e os romeiros da sua propriedade, sem pagar nenhuma indenização pelas benfeitorias realizadas.

Reinventando o paraíso

No ano de 1926, o padre Cícero procurou uma forma de aliviar os problemas causados pelo crescimento populacional de Juazeiro, que contínuo e desordenado. Ele orientou que as famílias de romeiros ocupassem as terras devolutas da chapada do Araripe e da Serra de São Pedro. O padre Cícero pediu ao beato José Lourenço que ele seguisse com várias famílias de romeiros para o sítio Caldeirão, de sua propriedade, localizado na cidade de Crato. O Caldeirão era um pedaço de terra “tirana”, seca e imprestável, de aspecto soturno com seus grotões (daí o nome “Caldeirão”) onde acumulava-se alguma água das boas invernadas. Esses grotões de água estagnada, com capacidade de resistir mesmo às secas mais sedentas, era também a morada da Mãe d’Água.

No Caldeirão, o beato estabeleceu a Irmandade da Santa Cruz do Deserto, ordem leiga de pobres penitentes – da qual ele era o “decurião” – aquele que planejava e governava a vida religiosa, social e econômica da comunidade. Trabalho, planejamento, inovação das técnicas agrícolas tradicionais, irrigação, disciplina, justiça social, fé em Deus e determinação para criar um novo mundo, foram os elementos fundamentais que transformaram o Caldeirão numa espécie de “celeiro do Cariri”. Plantações de algodão, arroz, cana e centenas de pés de frutas (laranja, abacate, cajá, banana, jaca, etc.) tomaram conta das paisagem. Desenvolveu-se a criação de pequenos animais domésticos e selvagens (bois, porcos, galinhas, emas, pavões, mocós, veados, teiús, preás etc.), foram erguidas 400 casas, um engenho para o fabrico da rapadura , um aviamento para a produção de farinha, depósitos para armazenar víveres, além de dois pequenos açudes que permitiam um sistema rústico de irrigação. Nas forjas, carpintarias e teares eram fabricados quase todos os bens de consumo e de produção de que a comunidade precisava: arados de madeira, moendas de engenho, prensas de aviamento, móveis, enxadas, pás, facas, tecido para roupa, alpargatas, gibões de vaqueiro, selas para animais, cabrestos, etc. A comunidade era auto-suficiente e os bens eram distribuídos de forma justa e igualitária entre os membros da comunidade (cada um trabalhava conforme a sua capacidade e recebia conforme a sua necessidade). Tudo o que sobrava da produção era armazenado e uma pequena parte destinada a venda e a troca com fins de venda e troca por alguns produtos impossíveis de serem produzidos na comunidade. A saúde da comunidade, preventiva e curativa, estava sob a responsabilidade do velho Bernardino, homem de grande conhecimento das qualidades farmacêuticas da flora regional e que tinha alguns conhecimentos práticos da medicina por ter sido enfermeiro em Recife. A fartura e a paz social do Caldeirão anunciavam-se aos olhos, barrigas e corações, de milhões de sertanejos como o “País de São Saruê” com suas farturas sem fim e delícias incontáveis. O beato Severino Tavares, arauto do evangelho popular, varava os sertões, anunciando a Terra da Promissão ( o País de São Saruê) para o novo povo escolhido por Deus (o selo da nova aliança se dera no Sangue vertido na boca da beata Maria). Ao Caldeirão, a cada ano, chegavam muitas famílias fugindo da fome e da servidão dos latifúndios. O crescimento da comunidade provocava inquietações nas autoridades e proprietários de terra da região que classificavam aquela experiência coletiva popular como “coisa de comunistas”. Denunciado em 1930, como subversivo e potencialmente perigoso para a ordem estabelecida, o beato José Lourenço recebe a vista de soldados das colunas revolucionárias tenentistas que tinham invadido o Cariri, sobretudo Juazeiro, o domínio do padre Cícero. No Caldeirão, os soldados nada encontraram, além de santos e utensílios de trabalhos. O beato e a sua comunidade são deixados em paz, os revolucionários tenentistas trataram de acomodar os seus novos interesses com os tradicionais interesses dos coronéis da região. A revolução de 1930 aconteceu para que tudo continuasse como antes ou como diziam seus líderes: “Vamos fazer a revolução antes que o povo a faça”. Na seca de 1932, enquanto milhares de camponeses morriam de fome nos campos de concentração organizados pelo Governo Federal, os camponeses que chegavam ao Caldeirão conseguiam sobreviver graças à grande quantidade de víveres estocados.

Com a morte do padre Cícero, em 1934, o sítio Caldeirão foi deixado em testamento para os padres Salesianos e estes logo reclamaram a retomada de posse da propriedade. O beato José Lourenço ainda tentou comprar o terreno, inutilmente. O clero regional, os políticos da Liga Eleitoral Católica e os grande proprietários deterra viam no Caldeirão um exemplo que não deveria continuar por subverter a ordem vigente. Como preparação da destruição final, surgiram denúncias de que o beato era um perigoso líder comunista, que tinha um harém, que preparava o povo para a luta armada, etc. Os boatos e as calúnias antecipavam a repressão. Eram formas preventivas de proteger a (má) consciência para as violências e os horrores que logo viriam com a destruição da Comunidade. Eram estratégias para aqueles que precisariam, de alguma forma, ser, depois, justificados. Ao ter informações de primeira mão sobre a eminente invasão do Caldeirão, a Irmandade da Santa Cruz do Deserto resolveu que os beatos José Lourenço, Severino Tavares e alguns outros deveriam refugiar-se na chapada do Araripe. O Caldeirão ficou sob o comando de Isaías, um dos líderes da Irmandade. Tal precaução mostrou-se acertada por preservar parte da liderança popular. No dia 9 de setembro de 1936, uma expedição da polícia Militar, invadiu e destruiu o Caldeirão. As casas e armazéns foram saqueados e incendiados. Os homens, mulheres e crianças, humilhados e impotentes ante a agressão armada, foram aprisionados e amontoados nos currais de gado, sob coronhadas e pontapés dos policiais.

Surgiu a dissidência no seio da Irmandade. O beato José Lourenço, para a retomada do Caldeirão, pregava uma solução negociada com o governo. Já o beato Severino Tavares era partidário da retomada do Caldeirão pelas armas. Parte do povo refugiado aceitou a liderança do beato Severino Tavares e, em maio de 1937, atacou com paus, foices e pedras, policiais que foram atraídos até a chapada do Araripe. Morreram no embate o Capitão José Bezerra (um dos comandantes da invasão), o seu filho Anacleto e mais dois soldados. A morte do Capitão e dos soldados acendeu o pavio do barril de pólvora. O interventor Menezes Pimentel enviou reforços militares e três aviões para combater a “Nova Canudos”, o que resultou em um terrível massacre, com centenas de camponeses mortos, tanto entre os seguidores de Severino Tavares como entre os seguidores do beato José Lourenço. Alguns anos depois, quando ficou provada a sua inocência no caso dos policiais mortos na Chapada do Araripe, o beato José Lourenço pôde, por fim, estabelecer-se no sítio União, em Pernambuco, onde viveu até o ano de 1946, época em que morreu vitimado pela peste bubônica. O seu corpo foi conduzido em uma rede, nos ombros de homens que se revezavam na longa caminhada, para o Juazeiro do Norte, onde foi sepultado. Execrada e proibida durante décadas, a memória do beato José Lourenço e da comunidade do Caldeirão foi resgatada pelo povo Cariri, a partir do início da década de 80. O mito de José Lourenço fez o caminho inverso do mito de Tristão Gonçalves de Alencar Araripe. Se, no caso de Tristão Gonçalves, a “alma afoita” virou “alma santa”, no caso do beato José Lourenço, a “alma santa” virou “alma afoita” e tornou-se um símbolo da resistência popular. O beato José Lourenço, hoje, é legenda nas Romarias da Terra e nas invasões dos latifúndios pelo Movimento dos Sem-Terra – MST.

O Caldeirão das culturas

O Cariri cearense é um dos berços do processo civilizatório sertanejo; é o grande caldeirão das culturas e etnias do Nordeste. Esse processo civilizatório, que se moveu sobre destroços e ossadas gerou uma cultura original que deita raízes nas principais vertentes das culturas ocidentais, notadamente das culturas tapuia, européias (ibéricas e mediterrâneas), norte africanas e afro-brasileiras. A grande riqueza e a grande contribuição do Cariri ao Brasil e ao mundo, não acontece através da cultura letrada e erudita, nem mesmo através do vigor da sua economia ou da sua importância política regional. O ouro dessa região é a cultura popular ou, como preferem os politicamente corretos, as culturas populares que possibilitaram um verdadeiro renascimento artístico – síntese e ensaio de uma brasilidade herdeira do mundo. A cultura cabocla-cariri, nascida da violência e do caos colonial, com seus heróis e suas artes de mil faces, com seus arquétipos e mitos, com sua orgia de forma e de cores, é uma cultura que ensaia uma nação brasileira mestiça e profunda. A cultura cabocla-cariri é, sobretudo, uma cultura generosa, pois nascida da violência e da exclusão se fez encontro e reciprocidade; crescida no múltiplo se fez síntese e, novamente, se afirmou na diversidade.

A constelação

Como expressão dessa cultura, temos as histórias escritas com sangue nas areias do deserto e adivinhadas em versos pelos cegos rabequeiros; as formas de vida modeladas no barro e revitalizadas pelo sopro da beleza; o coração dos homens que, habitando a terra bruta, se faz terno ao ser ferido pelos espinhos da poesia mais agreste; um mundo de realidades sonhadas nos contrastes das xilogravuras que ilustram os milagres e maravilhas da literatura de cordel; o dom dos mil ritmos nas canções dos cantadores ambulantes; os pastoris e caboclinhos cheios de graça e de luz; o encanto dos reisados de Congo e de bailes com suas fitas coloridas e espelhos que refletem o sol; as romarias como caminhos iniciáticos – festas de prazeres e ritos de penitências, onde o povo caboclo-cariri sabe o nome da sua Mãe: N. S. das Dores, N. S. das Candeias, N.S. do Belo Amor… todas uma mesma e Única-Mulher que gerou o mundo e o fez pulsar em um ciclo eterno de mortes e de ressureições. Para esse povo também não existe nenhuma dúvida que o “Bom Espírito” se chama Cícero, assim como poderia se chamar Ibiapina, Conselheiro, Lourenço ou Damião.

A cultura cabocla-cariri se transfigura em arte através de nomes como Patativa do Assaré, José Bernardo da Silva, Dona Ciça Fonseca, Cego Oliveira, Mestre Elói Teles de Morais, João de Cristo Rei, Mestre Aldenir Calou, Geraldo Gonçalves de Alencar, Mestre Ticola, Mestre José Ribeiro, Dona Assunção Gonçalves, Beata Rosinha, Cego Heleno de Nova Olinda, Dona Perpétua, As Três Marias (Maria de Lourdes, Maria do Socorro e Maria Cândido Monteiro), João Alexandre Sobrinho, Waldemar dos Passarinhos, Manoel Caboclo, Zé Gato, Luiz Gonzaga, Mestre Aprígio, José Ferreira, Expedito Sebastião da Silva, Mestre Dedé de Luna, Severino Batista do berimbau de lata, Pedro Bandeira, José Aves de Jesus, Francorli, Mestre Noza, Mestre Tico, Cego Aderaldo, Joaquim Mulato, Mestre Zulmira, José Lourenço, Mestre Severino do sítio Cabaceiras, Chico Mariano do Casimiro Coco, Dona Ciça do Barro Cru, Maria do Barro Cru, Nego, Madrinha Dodô, Mestre Sebastião Cosmo e Dona Fátima, Mestra Margarida, Geraldo Amâncio, Cizin, Dona Maria dos Benditos, os Irmãos Aniceto (Chico, João, Antônio, Raimundo, Benedito, Cícero e Britim), Walderedo Gonçalves, Zé de Matos, Mestre Miguel Florentino, Mestre Manuel Graciano, Mestre Nino do Crato… nomes, nomes, centenas de nomes que flutuam ao sabor da memória, como estrelas no céu. Se nas grandes constelações, apenas algumas estrelas são identificadas e nomeadas, milhões de outras estrelas anônimas não deixam de brilhar e de fazer mais belo o mundo. Assim também é a cultura tradicional de um povo – luz e trevas de toda a humanidade.

A esses homens e mulheres eu devo a minha arte mais profunda – o sonho. Devo também o nome pelo o qual eu me anuncio ao mundo: Cariri.

Fortaleza, 5 de março de 2001

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